ACADEMICA:
SALETE DO AMARAL
Analise Etnográfica
– Alimentação e Identidade no Território-
MBYÁ- GUARANI a aldeia V’ya
– Major Gercino (SC)
Este trabalho tem como objetivo análise
etnográfica sobre a dissertação de Mestrado em Desenvolvimento Regional. Procura-se fazer uma leitura, dos
diversos fatores realizados na pesquisa sobre o olhar da autora. Identificar as
mudanças ocorridas pelos Guaranis, para o novo território em Major Gercino. A
alimentação preparada pelas mulheres na aldeia V’va, qual sua importância para o grupo. Em que consiste a
sobrevivência dos Mbyá- Guarani, e quais os planos para cultivar a cultura que
vem se perdendo aos poucos.
Gabriel (2015) propõe avaliar os
impactos que vem ocorrendo por parte dos organizadores sobre a subsistência dos
envolvidos, não há um programa, direcionado para atender as necessidades de uma
tribo indígena, em especifico. Os programas criados pelos órgãos responsáveis
são generalizados para atender todo o território local e nacional, não dando
importância para a cultura e valores tradicionais.
Mbyá - Guarani, na
aldeia V’ya, situada na localidade de Águas Claras em
Major Gercino, região Noroeste da Grande Florianópolis, estado de Santa
Catarina, com ênfase na alimentação e suas práticas alimentares tradicionais.
Trata-se de um grupo indígena que não diferencia identidade, território e
organização social. Sua subsistência caracteriza-se pelo modo de ser guarani
através de diferentes práticas cotidianas e coletivas, reconhecendo-se enquanto
tais e sendo reconhecidos pelos outros.
A etnia Mbyá transita
pela América Latina. Desde os tempos imemoriais esse povo é habitante das
terras que se estendem entre o Uruguai, Argentina, Paraguai, Rio Grande do Sul,
Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Pertencem
ao troco Tupi-Guarani como os grupos Nhandeva e Kaiowá que se encontram ao
norte desse território, cada grupo com suas particularidades alimentares e
culturais.
Na
atualidade os Mbyá-Guarani resistem como podem à cultura de massa inserida
através dos veículos de comunicação. Utilizam-se deles para participarem de uma
rede formada por diversas etnias para o fortalecimento da identidade através da
discussão e formulação de projetos e políticas públicas que se referem à
população indígena. Desde os primeiros contatos com a sociedade envolvente essa
população cria estratégias de reconhecimento através de sua organização social.
Segundo
Gabriel Artur Benite (werá mirim), é
responsável pela aldeia V’ya,
“tradicional” para eles é viver como seus avós viviam, plantando os próprios
alimentos, caçando as carnes consumidas, tirando mel do mato, pescando nos
rios, coletando frutos das árvores, tomando mate ao amanhecer, construindo as
próprias moradias tudo sendo parte de uma identidade Mbyá-Guarani, com suas
regras e tabus, permanências e mudanças, mas com o direito de ser e existir
enquanto etnia. Ser Mbyá-Guarani é participar do passado, através da memória,
decidir o tempo presente para se viver o futuro, como em qualquer outro grupo
social. Mesmo nos dias atuais eles preservam na memória os modos de fazer as
comidas, as diferenciações de tratamento por idade perante a educação dos
filhos, diante das obrigações que o parentesco e a convivência em grupo trazem.
Na aldeia as mulheres Guaranis, fizeram alguns tipos de comidas e o modo de
fazer pamonha, e relataram o aprendizado culinário das meninas na família.
Todos eles expressaram a satisfação de poderem estar na aldeia para viverem do
“modo Mbyá” que para eles significa estar em contato direto com a natureza, com
os alimentos que ela produz e perto da família, elemento muito valoroso na
construção da identidade Mbyá - Guarani.
Desde
2009 muitas coisas mudaram na aldeia foi construído casas de alvenaria pelo
governo, modelo que para os Guaranis não faz parte de suas tradições. A
tradição de construção das casas é feitas de barro e cobertas com folhas de
palmeiras cultivadas na aldeia. Fizeram roças e puderam desfrutar das
colheitas, incluindo a retirada de mel de abelha que também faz parte do
cultivo alimentar dos Guaranis. Vinte e três famílias vivem nos espaços na
aldeia e compartilha dos saberes da terra e das tradições guarani.
O
grupo Guarani viveu dois momentos. O primeiro por viverem em território que
tinha condições suficientes para desenvolver suas habilidades com a terra. O
segundo e atual por ter que tirar sua sobrevivência da terra, e reconstruir um
sistema alimentar que vem se perdendo aos poucos.
1.
O Território
e a Identidade
Segundo
Gabriel, entre europeus e Mbyá-Guarani na região Sul do Brasil, em meados do século
XVI, efetivamente, eles haviam prestado uma grande contribuição para a
sobrevivência dos europeus durante todo o século XVI. Suas roças abasteceram
com alimentos frescos os navios. Suas flechas e armadilhas mataram animais que
forneceram carne para os europeus. Os córregos de água fresca que conheciam
abasteceram os tonéis dos barcos. Os Mbyá-Guarani trasitavam entre o Uruguai,
Argentina, Paraguai, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio
de Janeiro e Espírito, os grupos se deslocavam de um lugar para outro.
Visitavam outras aldeias de sua etnia.
No século XVI,
os tupis-guaranis distribuíram-se por uma área geográfica muito vasta. Os tupis
ocupavam a parte média e inferior da bacia do Amazonas e dos principais
afluentes da margem direita. Dominavam uma grande extensão do litoral
atlântico, da embocadura do Amazonas até Cananéia. Os guaranis ocupavam a
porção do litoral compreendida entre Cananéia e o Rio Grande do Sul; a partir
daí, estendiam-se para o interior até os rios Paraná, Uruguai e Paraguai. Da
confluência entre o Paraguai e o Paraná, as aldeias indígenas distribuíram-se
ao longo de toda a margem oriental do Paraguai e pelas duas margens do Paraná.
Seu território era limitado ao norte pelo rio Tietê, a oeste pelo rio Paraguai.
Mais adiante, separado deste bloco pelo Chaco, vivia outro povo guarani, os
chiriguanos, junto às fronteiras do Império Inca (CLASTRES, apud,Gabriel 1978,
p. 8).
A
autora faz relato de territórios atualmente ocupados pelos Mbya, Nhandéva
(Xiripa) e Kaiova, grupos Guarani que se encontram hoje no Brasil, compreende
as partes do Brasil, do Paraguai, da Argentina e do Uruguai. O Censo
Demográfico realizado pela Funai em 2010
mostra que entre os Tupi-Guarani estão 35 diferentes grupos sendo os Guarani
Kaiowá 43.401, os Guarani Mbyá 8.026 e os Guarani Nhandeva 8.596 mil
habitantes. A pesquisa apresenta um número crescente que indica a alta taxa de
natalidade. Em Santa Catarina, centenas de sítios e evidências arqueológicas
guarani comprovam a presença dessa população nos períodos pré-colonial e
colonial. No inicio do XIX, começaram as pesquisas arqueológicas e muitas
matérias cerâmicas pertencentes aos Guarani foram encontradas, principalmente
nas regiões litorâneas, Laguna, Balneário Camboriú (...). Os Mbyá Guaraini
tinham por costume, visitar outras aldeias e ficar passando algum tempo e
faziam trocas de sementes e outras necessidades de sua tradição. Hoje eles
relatam que tudo se tornou mais fácil. As viagens são mais rápido devidas aos
meios de transportes. Neste sentido podemos ver que ainda existe uma população
significante de povos Guarani em varias regiões do Brasil.
A
natalidade é de responsabilidade das mulheres, a questão de ter ou não filhos,
e criá-los. E também a responsabilidade de cuidar da alimentação e educação
dessa criança.
De acordo com Pierre Clastres (2004, p. 216), revela-se aqui uma proximidade imediata entre vida e
feminidade, de modo que a mulher é, em seu ser, ser-para-a-vida. Com isso se
evidencia, na sociedade primitiva, a diferença entre homem e mulher: como
guerreiro, o homem é ser-para-a-morte; como mãe, a mulher é ser-para-a-vida. É
seu vínculo respectivo com a vida e a morte sociais e biológicas que determina
as relações entre homens e mulheres. No inconsciente coletivo (a cultura), o
inconsciente masculino apreende e reconhece a diferença dos sexos como
superioridade irreversível das mulheres sobre os homens. Escravos da morte, os
homens invejam e temem as mulheres, senhoras da vida. Tal é a primitiva e
primordial verdade que uma análise séria de alguns mitos e ritos revelariam.
Mbyá-Guarani
A situação dos guerreiros. Nos dias atuais, um dos filhos mais velhos de seu
Artur Benite (werá mirim), que reside
na aldeia V’ya em Major Gercino tem o
nome de Marcelo Benite em português, karaí
xondaro, Seus conhecimentos são também repassados pelas gerações dos homens
guardiões dos saberes da luta/dança que foram denominados “Xondaro”.Mendes (2006, p. 98) relata que “quanto à característica
de luta, no Xondaro e em outras
danças, observa-se o treino corporal/espiritual de ataque e defesa”. Segundo a
autora a dança imita movimentos de animais e pode ser realizada no pátio da
aldeia ou na casa de reza. Esgueirar-se, desviar-se, defender-se dos
enfrentamentos diretos; a luta de guerrear sem armas. Os Xondaro’i e Xondaria’i
seriam os guardiões e guardiãs Guarani,
“os guerreiros da paz. Mbyá-Guarani assim como outras tribos desenvolve suas
habilidades de defesa.
Alimentação Mbyá-Guarani.
Gabriel (2014)
aponta que no Brasil, como vários países do hemisfério sul, é biologicamente
rico. Mas mais do que a maioria dos países, ele é rico também em populações que
conservam e desenvolvem conhecimentos sobre as espécies vivas. O que parecia
uma pobreza, o pequeno número de indivíduos em cada sociedade indígena, a
ênfase na diversidade de produtos e na exploração ampla dos recursos em vez de
uma agricultura centrada em poucas espécies, revela agora um trunfo. Há
registros que citam que antes dos europeus chegarem ao Brasil, já havia uma
disputa entre os povos originários por território rico e fértil para
alimentação.
Segundo Gabriel (2014 apud DAMATTA,1986). Algo que diz
respeito a todos os seres humanos: amigos ou inimigos, gente de perto ou de
longe, da rua ou de casa, do céu ou da terra. Mas a comida é algo que define um
domínio e põe as coisas em foco. Assim, a comida é correspondente ao famoso e
antigo “de-comer”, expressão equivalente à refeição, como de resto é a palavra
comida. Por outro lado, comida se refere a algo costumeiro e sadio, alguma
coisa que ajuda a estabelecer uma identidade, definindo, por isso mesmo, um
grupo, classe ou pessoa. O alimento é algo universal e geral.
No
que se refere à culinária indígena, pode-se dizer que não havia um desejo de
mudança da dieta alimentar e seus efeitos negativos para a saúde dos indígenas,
também não havia uma preocupação com as consequencias do convívio entre brancos
e índigenas. De acordo com Gabriel (2014) “com a colonização esse conhecimento
alimentar foi desestruturado a partir das mudanças demográficas.” A partir
desse fato, houve uma condensação demográfica do litoral, o que correspondeu à
difusão ou restrição da culinária indígena.
Segundo
Gabril(2014) para os Mbyá-Guarani, a questão da moradia, casas de alvenaria e
casas construídas de barro tem haver com
o preparo dos alimentos o modo de cozinhar. No entanto, não são todos os moradores que se
adaptam a cozinhar e dormir nas casas de alvenaria. Outra diferença é o
cozinhar no fogão a gás, “não tradicional”, e no fogo de chão considerado por
eles a forma “tradicional”. Segundo eles a comida se altera. Os Mbyá-Guarani
dormem cedo, assim que anoitece, e o dia começa para eles por volta das cinco
horas da manhã, por esse motivo a luz elétrica muda o cotidiano da família e os
hábitos dos moradores da aldeia.
Há uma área coberta de mata chamada por eles de“aldeia
tradicional”, com casas de barro onde o teto é feito com um trançado de palha
de pindoí. Uma construção tradicional
chamada hoje de “Escola Tradicional” foi construída na entrada da aldeia e a
“Escola” de alvenaria é uma casa anteriormente construída, adquirida com a
compra do terreno. O convênio entre DNIT/FUNAI determinou a construção de casas de
alvenaria, cerca de oito, com energia elétrica, para que os Mbyá-Guarani
pudessem habitá-las. As casas são hoje ocupadas pelos mais jovens, servem como
escritório para receber pessoas de fora da aldeia e uma cozinha coletiva onde o
cacique, Artur Benite (werá mirim)de 72 anos, faz a
divisão das tarefas diárias (Gabriel 2014,pg.32)
Casas
construídas de barro.
Casas de alvenaria na aldeia
Mbyá-Guarani.
Para os moradores Guarani as casas de
alvenaria não fornecem as condições de viver como tradição de costume igual às
casas de barro. Não podem fazer fogo no chão, pois a casa é de telhado e não
tem para onde sair à fumaça. Quando não chove eles fazem o fogo na rua, e
permanecem nas casas de alvenaria. E quando chove muitas famílias dormem nas
casas de barro no interior da aldeia. As casas de barro fazem parte da tradição
deles, podem fazer o fogo de chão e se aquecerem, a cobertura é feita de palha,
a fumaça sair pela as aberturas do telhado.
Organização e parentesco.
Na aldeia V’ya a
família Guarani, distribui as funções. Entre merendeira, agente de saúde, responsável
pela plantação, casa, pesca, colheita, tradição de luta, Page entre outros
cargos que vazem parte da aldeia. A plantação e a pesca são preceitos básicos
para sua sobrevivência na aldeia, e também resgata a cultura alimentar dos
Guarani. Eles guardam referencias de seus antepassados para
não deixar morrer a tradição.
Seu
Artur (werá mirim) conta que hoje tem
“sessenta netos e sete bisnetos dezenove
filhos, mas quatro mortos e quinze vivos, oito mulheres e sete homens. Aqui tem
treze e o outro está lá no Morro dos Cavalos, Maciambú minha filha e outra em
Nanoai”. O senhor de 72 anos comenta. Que ao perder uma esposa, sentiu-se e não
conseguia fazer alimentação, então se casou para ter alguém para cozinhar
Gabriel (2014) afirma que a questão da família esta centrada na alimentação,
representada pelo feminino, que cuida da casa, família, e cozinha.
A família – e o
parentesco de forma mais geral – supõe homens e mulheres e, como veremos, o
gênero é também construído, no plano das representações, através da percepção
da comida. Com isso queremos dizer que a comida “fala” da família, de homens e
de mulheres, tanto para o antropólogo que realiza uma leitura consciente dos
hábitos de comer, como para os próprios membros do grupo familiar e através
deste, da sociedade que realizam uma prática inconsciente de um habitus alimentar (GABRIEL, 2014, pg.38)
A relação de produção é recíproca
Os
povos originários vivem de maneira diferenciada. Para eles a terra é um bem
comum, todos podem desfrutar das riquezas da terra, plantar caçar, morar. Vivem
com igualdade dentro dos limites em que a terra lhes – oferece. São livres não
tem chefes ou patrão para mandá-los. Fazem suas próprias leis, definem seus
horários.
Considerações
Fazer
uma analise sobre povos originários, requer muito tempo para explorar um vasto
campo, cheio de riquezas que esses povos apresentam em cada pesquisa realizada.
Verificou-se a questão da alimentação, parentesco, território e a vida na
aldeia.
A
mulher tem um papel fundamental para a criação dos filhos, e também para o
preparo dos alimentos, e cuidados com todos os membros da família. Observou-se
o difícil adaptar, dos Guarani, com as casas de alvenaria, e até mesmo a
própria cultura do homem branco que vai aos poucos se inserindo na cultura dos
Guarani causando muitos desconforto as mudanças. No entanto não podemos deixar
de refletir sobre as mudanças ocorridas historicamente de territórios ocupações
de terra não adequada aos modos de vida Guarani. Sendo obrigados a conviver com
outras culturas. Buscam outras formas de subsistência tentando sobreviver aos
desencontros de suas tradições.
Referencia
VANDREZA, Amante Gabriel.Outubro 2014 Blumenau SC.
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