sexta-feira, 3 de julho de 2015

Analise Etnográfica – Alimentação e Identidade no Território- MBYÁ- GUARANI a aldeia V’ya – Major Gercino (SC)

ACADEMICA: SALETE DO AMARAL

Analise Etnográfica – Alimentação e Identidade no Território-

MBYÁ- GUARANI a aldeia V’ya – Major Gercino (SC)

Este trabalho tem como objetivo análise etnográfica sobre a dissertação de Mestrado em Desenvolvimento Regional. Procura-se fazer uma leitura, dos diversos fatores realizados na pesquisa sobre o olhar da autora. Identificar as mudanças ocorridas pelos Guaranis, para o novo território em Major Gercino. A alimentação preparada pelas mulheres na aldeia V’va, qual sua importância para o grupo. Em que consiste a sobrevivência dos Mbyá- Guarani, e quais os planos para cultivar a cultura que vem se perdendo aos poucos.

Gabriel (2015) propõe avaliar os impactos que vem ocorrendo por parte dos organizadores sobre a subsistência dos envolvidos, não há um programa, direcionado para atender as necessidades de uma tribo indígena, em especifico. Os programas criados pelos órgãos responsáveis são generalizados para atender todo o território local e nacional, não dando importância para a cultura e valores tradicionais.
Mbyá - Guarani, na aldeia V’ya, situada na localidade de Águas Claras em Major Gercino, região Noroeste da Grande Florianópolis, estado de Santa Catarina, com ênfase na alimentação e suas práticas alimentares tradicionais. Trata-se de um grupo indígena que não diferencia identidade, território e organização social. Sua subsistência caracteriza-se pelo modo de ser guarani através de diferentes práticas cotidianas e coletivas, reconhecendo-se enquanto tais e sendo reconhecidos pelos outros.

A etnia Mbyá transita pela América Latina. Desde os tempos imemoriais esse povo é habitante das terras que se estendem entre o Uruguai, Argentina, Paraguai, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Pertencem ao troco Tupi-Guarani como os grupos Nhandeva e Kaiowá que se encontram ao norte desse território, cada grupo com suas particularidades alimentares e culturais.
Na atualidade os Mbyá-Guarani resistem como podem à cultura de massa inserida através dos veículos de comunicação. Utilizam-se deles para participarem de uma rede formada por diversas etnias para o fortalecimento da identidade através da discussão e formulação de projetos e políticas públicas que se referem à população indígena. Desde os primeiros contatos com a sociedade envolvente essa população cria estratégias de reconhecimento através de sua organização social.
Segundo Gabriel Artur Benite (werá mirim), é responsável pela aldeia V’ya, “tradicional” para eles é viver como seus avós viviam, plantando os próprios alimentos, caçando as carnes consumidas, tirando mel do mato, pescando nos rios, coletando frutos das árvores, tomando mate ao amanhecer, construindo as próprias moradias tudo sendo parte de uma identidade Mbyá-Guarani, com suas regras e tabus, permanências e mudanças, mas com o direito de ser e existir enquanto etnia. Ser Mbyá-Guarani é participar do passado, através da memória, decidir o tempo presente para se viver o futuro, como em qualquer outro grupo social. Mesmo nos dias atuais eles preservam na memória os modos de fazer as comidas, as diferenciações de tratamento por idade perante a educação dos filhos, diante das obrigações que o parentesco e a convivência em grupo trazem. Na aldeia as mulheres Guaranis, fizeram alguns tipos de comidas e o modo de fazer pamonha, e relataram o aprendizado culinário das meninas na família. Todos eles expressaram a satisfação de poderem estar na aldeia para viverem do “modo Mbyá” que para eles significa estar em contato direto com a natureza, com os alimentos que ela produz e perto da família, elemento muito valoroso na construção da identidade Mbyá - Guarani.
Desde 2009 muitas coisas mudaram na aldeia foi construído casas de alvenaria pelo governo, modelo que para os Guaranis não faz parte de suas tradições. A tradição de construção das casas é feitas de barro e cobertas com folhas de palmeiras cultivadas na aldeia. Fizeram roças e puderam desfrutar das colheitas, incluindo a retirada de mel de abelha que também faz parte do cultivo alimentar dos Guaranis. Vinte e três famílias vivem nos espaços na aldeia e compartilha dos saberes da terra e das tradições guarani.
O grupo Guarani viveu dois momentos. O primeiro por viverem em território que tinha condições suficientes para desenvolver suas habilidades com a terra. O segundo e atual por ter que tirar sua sobrevivência da terra, e reconstruir um sistema alimentar que vem se perdendo aos poucos.
1.      O Território e a Identidade

Segundo Gabriel, entre europeus e Mbyá-Guarani na região Sul do Brasil, em meados do século XVI, efetivamente, eles haviam prestado uma grande contribuição para a sobrevivência dos europeus durante todo o século XVI. Suas roças abasteceram com alimentos frescos os navios. Suas flechas e armadilhas mataram animais que forneceram carne para os europeus. Os córregos de água fresca que conheciam abasteceram os tonéis dos barcos. Os Mbyá-Guarani trasitavam entre o Uruguai, Argentina, Paraguai, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito, os grupos se deslocavam de um lugar para outro. Visitavam outras aldeias de sua etnia.
No século XVI, os tupis-guaranis distribuíram-se por uma área geográfica muito vasta. Os tupis ocupavam a parte média e inferior da bacia do Amazonas e dos principais afluentes da margem direita. Dominavam uma grande extensão do litoral atlântico, da embocadura do Amazonas até Cananéia. Os guaranis ocupavam a porção do litoral compreendida entre Cananéia e o Rio Grande do Sul; a partir daí, estendiam-se para o interior até os rios Paraná, Uruguai e Paraguai. Da confluência entre o Paraguai e o Paraná, as aldeias indígenas distribuíram-se ao longo de toda a margem oriental do Paraguai e pelas duas margens do Paraná. Seu território era limitado ao norte pelo rio Tietê, a oeste pelo rio Paraguai. Mais adiante, separado deste bloco pelo Chaco, vivia outro povo guarani, os chiriguanos, junto às fronteiras do Império Inca (CLASTRES, apud,Gabriel 1978, p. 8).
A autora faz relato de territórios atualmente ocupados pelos Mbya, Nhandéva (Xiripa) e Kaiova, grupos Guarani que se encontram hoje no Brasil, compreende as partes do Brasil, do Paraguai, da Argentina e do Uruguai. O Censo Demográfico  realizado pela Funai em 2010 mostra que entre os Tupi-Guarani estão 35 diferentes grupos sendo os Guarani Kaiowá 43.401, os Guarani Mbyá 8.026 e os Guarani Nhandeva 8.596 mil habitantes. A pesquisa apresenta um número crescente que indica a alta taxa de natalidade. Em Santa Catarina, centenas de sítios e evidências arqueológicas guarani comprovam a presença dessa população nos períodos pré-colonial e colonial. No inicio do XIX, começaram as pesquisas arqueológicas e muitas matérias cerâmicas pertencentes aos Guarani foram encontradas, principalmente nas regiões litorâneas, Laguna, Balneário Camboriú (...). Os Mbyá Guaraini tinham por costume, visitar outras aldeias e ficar passando algum tempo e faziam trocas de sementes e outras necessidades de sua tradição. Hoje eles relatam que tudo se tornou mais fácil. As viagens são mais rápido devidas aos meios de transportes. Neste sentido podemos ver que ainda existe uma população significante de povos Guarani em varias regiões do Brasil.
A natalidade é de responsabilidade das mulheres, a questão de ter ou não filhos, e criá-los. E também a responsabilidade de cuidar da alimentação e educação dessa criança.
  De acordo com Pierre Clastres (2004, p. 216), revela-se aqui uma proximidade imediata entre vida e feminidade, de modo que a mulher é, em seu ser, ser-para-a-vida. Com isso se evidencia, na sociedade primitiva, a diferença entre homem e mulher: como guerreiro, o homem é ser-para-a-morte; como mãe, a mulher é ser-para-a-vida. É seu vínculo respectivo com a vida e a morte sociais e biológicas que determina as relações entre homens e mulheres. No inconsciente coletivo (a cultura), o inconsciente masculino apreende e reconhece a diferença dos sexos como superioridade irreversível das mulheres sobre os homens. Escravos da morte, os homens invejam e temem as mulheres, senhoras da vida. Tal é a primitiva e primordial verdade que uma análise séria de alguns mitos e ritos revelariam.
Mbyá-Guarani A situação dos guerreiros. Nos dias atuais, um dos filhos mais velhos de seu Artur Benite (werá mirim), que reside na aldeia V’ya em Major Gercino tem o nome de Marcelo Benite em português, karaí xondaro, Seus conhecimentos são também repassados pelas gerações dos homens guardiões dos saberes da luta/dança que foram denominados “Xondaro”.Mendes (2006, p. 98) relata que “quanto à característica de luta, no Xondaro e em outras danças, observa-se o treino corporal/espiritual de ataque e defesa”. Segundo a autora a dança imita movimentos de animais e pode ser realizada no pátio da aldeia ou na casa de reza. Esgueirar-se, desviar-se, defender-se dos enfrentamentos diretos; a luta de guerrear sem armas. Os Xondaro’i e Xondaria’i seriam os guardiões e guardiãs Guarani, “os guerreiros da paz. Mbyá-Guarani assim como outras tribos desenvolve suas habilidades de defesa.
Alimentação Mbyá-Guarani.
Gabriel (2014) aponta que no Brasil, como vários países do hemisfério sul, é biologicamente rico. Mas mais do que a maioria dos países, ele é rico também em populações que conservam e desenvolvem conhecimentos sobre as espécies vivas. O que parecia uma pobreza, o pequeno número de indivíduos em cada sociedade indígena, a ênfase na diversidade de produtos e na exploração ampla dos recursos em vez de uma agricultura centrada em poucas espécies, revela agora um trunfo. Há registros que citam que antes dos europeus chegarem ao Brasil, já havia uma disputa entre os povos originários por território rico e fértil para alimentação.
Segundo Gabriel (2014 apud DAMATTA,1986). Algo que diz respeito a todos os seres humanos: amigos ou inimigos, gente de perto ou de longe, da rua ou de casa, do céu ou da terra. Mas a comida é algo que define um domínio e põe as coisas em foco. Assim, a comida é correspondente ao famoso e antigo “de-comer”, expressão equivalente à refeição, como de resto é a palavra comida. Por outro lado, comida se refere a algo costumeiro e sadio, alguma coisa que ajuda a estabelecer uma identidade, definindo, por isso mesmo, um grupo, classe ou pessoa. O alimento é algo universal e geral.


No que se refere à culinária indígena, pode-se dizer que não havia um desejo de mudança da dieta alimentar e seus efeitos negativos para a saúde dos indígenas, também não havia uma preocupação com as consequencias do convívio entre brancos e índigenas. De acordo com Gabriel (2014) “com a colonização esse conhecimento alimentar foi desestruturado a partir das mudanças demográficas.” A partir desse fato, houve uma condensação demográfica do litoral, o que correspondeu à difusão ou restrição da culinária indígena.
Segundo Gabril(2014) para os Mbyá-Guarani, a questão da moradia, casas de alvenaria e casas construídas de barro  tem haver com o preparo dos alimentos o modo de cozinhar.  No entanto, não são todos os moradores que se adaptam a cozinhar e dormir nas casas de alvenaria. Outra diferença é o cozinhar no fogão a gás, “não tradicional”, e no fogo de chão considerado por eles a forma “tradicional”. Segundo eles a comida se altera. Os Mbyá-Guarani dormem cedo, assim que anoitece, e o dia começa para eles por volta das cinco horas da manhã, por esse motivo a luz elétrica muda o cotidiano da família e os hábitos dos moradores da aldeia.

Há uma área coberta de mata chamada por eles de“aldeia tradicional”, com casas de barro onde o teto é feito com um trançado de palha de pindoí. Uma construção tradicional chamada hoje de “Escola Tradicional” foi construída na entrada da aldeia e a “Escola” de alvenaria é uma casa anteriormente construída, adquirida com a compra do terreno. O convênio entre DNIT/FUNAI determinou a construção de casas de alvenaria, cerca de oito, com energia elétrica, para que os Mbyá-Guarani pudessem habitá-las. As casas são hoje ocupadas pelos mais jovens, servem como escritório para receber pessoas de fora da aldeia e uma cozinha coletiva onde o cacique, Artur Benite (werá mirim)de 72 anos, faz a divisão das tarefas diárias (Gabriel 2014,pg.32)

Casas construídas de barro.
Casas de alvenaria na aldeia Mbyá-Guarani.

 Para os moradores Guarani as casas de alvenaria não fornecem as condições de viver como tradição de costume igual às casas de barro. Não podem fazer fogo no chão, pois a casa é de telhado e não tem para onde sair à fumaça. Quando não chove eles fazem o fogo na rua, e permanecem nas casas de alvenaria. E quando chove muitas famílias dormem nas casas de barro no interior da aldeia. As casas de barro fazem parte da tradição deles, podem fazer o fogo de chão e se aquecerem, a cobertura é feita de palha, a fumaça sair pela as aberturas do telhado. 
Organização e parentesco.
Na aldeia V’ya a família Guarani, distribui as funções. Entre merendeira, agente de saúde, responsável pela plantação, casa, pesca, colheita, tradição de luta, Page entre outros cargos que vazem parte da aldeia. A plantação e a pesca são preceitos básicos para sua sobrevivência na aldeia, e também resgata a cultura alimentar dos Guarani. Eles guardam referencias de seus antepassados para não deixar morrer a tradição.
Seu Artur (werá mirim) conta que hoje tem “sessenta netos e sete bisnetos  dezenove filhos, mas quatro mortos e quinze vivos, oito mulheres e sete homens. Aqui tem treze e o outro está lá no Morro dos Cavalos, Maciambú minha filha e outra em Nanoai”. O senhor de 72 anos comenta. Que ao perder uma esposa, sentiu-se e não conseguia fazer alimentação, então se casou para ter alguém para cozinhar Gabriel (2014) afirma que a questão da família esta centrada na alimentação, representada pelo feminino, que cuida da casa, família, e cozinha.
A família – e o parentesco de forma mais geral – supõe homens e mulheres e, como veremos, o gênero é também construído, no plano das representações, através da percepção da comida. Com isso queremos dizer que a comida “fala” da família, de homens e de mulheres, tanto para o antropólogo que realiza uma leitura consciente dos hábitos de comer, como para os próprios membros do grupo familiar e através deste, da sociedade que realizam uma prática inconsciente de um habitus alimentar (GABRIEL, 2014, pg.38)
A relação de produção é recíproca

Os povos originários vivem de maneira diferenciada. Para eles a terra é um bem comum, todos podem desfrutar das riquezas da terra, plantar caçar, morar. Vivem com igualdade dentro dos limites em que a terra lhes – oferece. São livres não tem chefes ou patrão para mandá-los. Fazem suas próprias leis, definem seus horários.
Considerações
Fazer uma analise sobre povos originários, requer muito tempo para explorar um vasto campo, cheio de riquezas que esses povos apresentam em cada pesquisa realizada. Verificou-se a questão da alimentação, parentesco, território e a vida na aldeia.
A mulher tem um papel fundamental para a criação dos filhos, e também para o preparo dos alimentos, e cuidados com todos os membros da família. Observou-se o difícil adaptar, dos Guarani, com as casas de alvenaria, e até mesmo a própria cultura do homem branco que vai aos poucos se inserindo na cultura dos Guarani causando muitos desconforto as mudanças. No entanto não podemos deixar de refletir sobre as mudanças ocorridas historicamente de territórios ocupações de terra não adequada aos modos de vida Guarani. Sendo obrigados a conviver com outras culturas. Buscam outras formas de subsistência tentando sobreviver aos desencontros de suas tradições.


Referencia


VANDREZA, Amante Gabriel.Outubro 2014 Blumenau SC.

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